HISTÓRIA DA LUTA PELA TERRA DE PAU SANTO E A MORTE DO MANOEL MONTERIO

Seu Manoel Monteiro
Seu Manoel Monteiro

O DIA DO GRANDE HORROR

Dia 23 de novembro de 1985

 

O sofrimento da Aldeia e do Pau Santo

 

Aldeia é Terra de Deus e Terra dos irmãos. O povo dizia: Isto aqui é nosso. Mas de uns anos para cá, o local foi profanado por alguém que dizia: Isto aqui é meu! E a Terra começou a sofrer. O Manto de Cristo, sem costura, foi todo cortado. Até antigos caminhos foram fechados. O povo não podia diante da prepotência, mas nunca aceitou a canga. O tempo passou e cuidou de cobrir a terra nua com capoeira. Quando o mato engrossou, chamou o povo: Já tenho pão para dar!  Os homens entraram “na marra”, já que a lei era tão cruel. Entraram, e não foi na terra alheia. Foi na terra dos pais e avós. Brocaram e derrubaram, mas quem aproveitou foi o Inimigo que de noite semeou capim. A terra chorou, violentada. Já neste ano tornou a convidar, preocupada que estava com a fome do povo. Os homens entraram de novo, brocando e derrubando, mas o Inimigo redobrou no ataque.

No dia 23 de novembro de 1985, dia de sábado pela 10 h da manhã, Aldeia foi invadida por 115 soldados, a maioria com farda da PM, e outros sem farda, sob o comando daquele que tem o nome de Secretário de Segurança. Logo instalaram o horror com tanta arma que o povo nunca tinha visto.

Havia no local um encontro de estudo, e os lavradores estudavam a pergunta: Qual é a causa de tanto sofrimento? E de quem é a culpa? – No quadro estavam as respostas com os nomes dos culpados e, para quem duvidasse, a prova estava chegando com toda a violência feito um batalhão. O padre que estava presente acalmou as pessoas: Fiquem nos seus lugares sem se mexer!  - O Secretário, à frente da tropa, não contava com isto: Lá estava o advogado da Diocese, testemunha ocular, que podia ser perigoso. Baixaram as armas e se lembraram do pretexto legal que era a leitura da Liminar Provisória que o juiz tinha dado em favor do grileiro: “Vocês estão proibidos de entrar na área”. A pergunta que ninguém fez foi esta: E a roça? E o pão dos filhos? A razão para 115 soldados entrar na Aldeia foi só esta: Para o Oficial de Justiça entregar esta liminar! Para aproveitar o embalo queriam “dar uma lição”. Instalaram metralhadoras nos pontos de acesso, circularam a igreja, mas tudo isto sem jeito, pela presença do advogado que tem nome em São Luiz: Dr. Sandes Macedo. Finalmente saíram, dizendo: Vamos voltar para Bacabal! Ainda pegaram dois jovens de menor que levaram presos. A permanência no local foi de uma hora de pouco. Quando chegaram na pista, em vez de pegar a direção para Bacabal, tomaram o rumo de Lago da Pedra, e todo mundo sabia: Agora vão para Pau Santo!

O transporte era em carros particulares. Quem deu gasolina para esta viagem? Quando chegaram na Cigana, humilharam um comerciante que mora na entrada. Lá havia alguns rapazes de Pau Santo para vender e comprar. Um deles escapuliu e fugiu por outro caminho, para ver se chegaria antes do temporal. Sabendo que a viagem agora seria a pé, a polícia forçou dois homens para carregar fardos de munição, andando no meio do pelotão com a carga na cabeça. Tudo se revoltou contra a barbaridade: Deus mandou uma chuva torrencial, mas o exército entrou cantando, como se fosse para salvar a pátria. O jovem mensageiro, de nome Daví, correu muito: espalhou a notícia pelo caminho, e o Anjo da Guarda emprestou as pernas para ele aguentar a carreira. O perigo era na entrada do Pau Santo, onde a vista se abre. Apenas conseguiu atravessar o campo aberto, quando o batalhão chegou no igarapé. O jovem correu para as primeiras casas, onde encontrou o velho Manoel. “Corra, que a polícia está chegando!” O idoso respondeu: “Prá onde?” Fora dele só tinha a filha e a nora, na casa apegada. Nesta hora os tiros já estavam zoando. Quando os soldados se aproximaram da casa, os moradores de dentro ouviram o grito: “Toca fogo!” Um soldado falou: “Tem menino!” Mas outro respondeu: “Você tem medo? Toca fogo!” Talvez não botaram fogo por causa da chuva.  O Sr. Manoel não pensou em resistência. Apenas se lembrou de uma arma que ele tratou de esconder, pois podia complicar a situação. A frente da casa já estava tomada. Ele ainda pegou um plástico para enrolar a arma e saiu pelos fundos. Acontece que por lá já tinha soldados também. Não teve troca de palavras: Alvejaram o ancião de 76 anos e o mataram sem dó com cinco tiros. O tiro que matou foi por trás, porque depois de morto estava caído de joelhos no batente da casa.

Os próprios soldados não acharam vantagem de terem matado um velho inocente, e logo surgiu a mentira: Ele botou arma em nós! – Quem estava à frente de tudo isto? O caçador era Manoel Bezerra, pretenso dono, liderando a perseguição. Um Manoel que morreu e outro Manoel que matou! Logo este nome que quer dizer: Deus conosco! Os próprios soldados botaram o morto para dentro, e aos choros da filha um deles falou: “Não chore. As velas eu mando!” As duas mulheres sem defesa no meio das feras colocaram criança de peito na frente e suplicaram: “Não mate os inocentes!”

A casa do Sr. Manoel mostra muita marca de bala e a parede de fora está toda cheia de tiros. A casa é feita só de pobreza e precisão. Na sala tem o quadro de Pe. Cicero com o espelho quebrado e uma bala na moldura. Tem outro quadro com diversos santinhos que um deles tem estes dizeres: Agora e na hora de nossa morte, Amem. O tiro deu quase em cima da morte.

A casa vizinha é a igreja. Não deu trabalho para quebrar a porta. A casa santa foi profanada com tiros no telhado. Fazia poucos dias que o quadro de Nossa Senhora dos Aflitos tinha sido instado na capela: O barco querendo naufragar e Nossa Senhora acudindo os navegantes no Mar da Aflição. Quase que a Mãe dos Aflitos levava um tiro. E ela não tardou em socorrer. Pois no Pau Santo era para correr mais sangue.

Tudo era ligeiro. Da capela foram até a Assembleia de Deus. E neste dia as duas igrejas se tornaram irmãs no mesmo sofrimento sem querer. O vizinho da Assembleia foi interrogado: “Você também é desta luta?” Ele respondeu: “Eu sou crente”! - “Mas crente também mata”, disse um soldado. De lá foram subindo a ladeira, quebraram portas e janelas com muita força. Mas para que tanta raiva? Porta de pobre é d madeira fraca ou de esteira. Atacaram um rapaz com coronha de revolver que logo correu sangue da cabeça. Entrou outro soldado, perguntando: “Que foi?” O rapaz falou: “Foi cabo de revolver”. Mas ele foi forçado a dizer: “Diz que foi queda”. Ninguém podia dizer nada. O castigo para quem respondesse era este: “Deita no chão! Rola na terra!”

A escola municipal tem duas classes, sanitário e despensa. Lá quebraram todas as portas. Será que a autoridade municipal vai reclamar o prejuízo? Sendo um dia chuvoso, o barro pagava nas botas. Todas as portas têm marca de brutalidade. O pé dos violentos é o selo da prepotência. Numa das salas tem um quadro cheio de palavras escritas. Primeira a frase da professora, escrita ao alto: “O estudo é a luz  da vida”. Outra diz: “Alunos, mostrem sua educação ao menos na sala de aula”. Outras palavras deviam ser de uma reunião de lavradores onde dizia entre outros: STR (Sindicados dos Trabalhadores Rurais) com esta interpretação: S de Sofrimento, T de Trabalho e R de Reivindicação. Ainda tinha os dizeres: “União, saúde, coragem! Deus é nossa defesa!” Era desta frase que um dos soldados não gostou, porque em cima da palavra tem marca de facão.                

Avançaram mais para cima, gritando: “Onde estão os trezentos homens de guerra?” Sim, onde estavam os homens? Os lavradores estavam na roça, trabalhando honestamente. Lá foram avisados pelos tiros. Os soldados não encontraram homens de guerra, só crianças chorando e mulheres correndo. Só não correu um homem de idade que resolveu: “Da minha casa não saio!” Depois que o temporal passou, na mala dele faltou uma foice e uma espingarda. Também não correu uma senhora que estava com três filhos pequenos e sua sogra cega. “Como posso correr?” disse ela. O jeito era enfrentar o desastre. Dois meninos se esconderam, a pequena agarrada na saia, uma no ventre, e a cega caçando aflita o ombro da nora. Entrou o vendaval: “Cadê o marido? Mãos para cima! Vão para fora! Leva a velha para a igreja para falar com o coronel!”

“Quem estiver no campo, não corra para casa para buscar alguma coisa”. Foi o caso de um pai de família. Estava plantando arroz com a benção da chuva. Não correu para casa e, sim, para o Centro do Evangelho. É porque perto do Pau Santo tem o sítio de um homem com o apelido de Evangelho. E a casa dele foi o refúgio para todos. Lá se encontraram homens e mulheres e crianças. “Rezai para que o dia não seja um sábado”. Mas foi um sábado, um fim de semana diferente, para os soldados se divertirem.

“Ai das mulheres grávidas!” Uma das mães correu com cinco meninos, sempre evitando a estrada, e deu sete quedas. O que não sofreu o menino no ventre! “Ai das mulheres que amamentam!”  Um avô correu com uma criança pequena e procurou a filha que tinha fugido com o resto. Encontrou a mãe dos meninos debaixo da chuva. Todos correndo no rumo do “Evangelho”. Este, aliás, é o homem que um companheiro citou um dia: “Todos os proprietários são contra nós, mas o Evangelho é por nós!” Nem se deu conta que estava falando em duplo sentido! Sim, este sítio foi o lugar que acolheu os gemidos e ouviu os choros. Neste dia, o Mar da Aflição transbordou. Com tanto tiro que se ouvia, o povo imaginava: Quantos morreram? Será que o pai está vivo? Queira Deus que ninguém faça tolice! Foi tanto tiro, mas os soldados acharam pouco. Um deles falou: “Só gastei uma caixa!” A fúria avançou, invadindo, revirando e quebrando: soldado tem raiva de porta. Mas porta nenhuma fez resistência, como os homens não resistiram e assim como Jesus não resistiu: Se procurais a mim, aqui estou! As ondas da violência só amansaram no fim das casas, porque qualquer onda tem que se quebrar na praia. Quando chegaram na última casa, houve um engano, ou talvez um truque: O dono da casa é amigo de Herodes, mas a casa foi invadida como os outros.

No meio das feras foi vista uma mulher fardada. Ninguém sabe quem foi, armada como os soldados. Maldita entre as mulheres. Depois voltaram até a igreja, e Jesus disse à soldadesca: “A quem buscais? Já vos disse que sou Eu! – Nisto recuaram e caíram por terra”. Sim, a prepotência caiu do cavalo. Lutar com quem? Não tinha homem de briga. Argumentar com quê? A mentira sumiu da terra e a verdade apareceu: O Pau Santo é um lugar onde só tem homem que trabalha e menino que precisa comer. Na Aldeia ao menos leram ainda a Liminar de despejo, no Pau Santo, nem isto (que seria o pretexto legal para a barbaridade). Vieram só para devastar. O batalhão em retirada teve que passar de novo na casa do velho Manoel, e o morto falou bem alto: “Sou eu! Deixai em paz os meus!” Assim se cumpriu a palavra que diz: “Dos que me destes não perdi nenhum”. Aquele que pereceu deu vida a todos. Manoel estava consciente do perigo, pois havia dito poucos dias antes da tragédia para o Senhor Marcelino: “Eu vou ser bucha de canhão”. Na sua casa de taipa e palha, na sua velhice e enfermidade ele foi a imagem do sofredor inocente, único que anda poderia converter o violento. Mas será que conseguiu? Algum dia o arrependimento e a vergonha iriam chegar ao coração dos soldados, mas, quando passaram na Cigana ainda não mostraram moleza, pois espalharam com a própria boca: Matamos três! (mentira) É porque acharam pouca glória ter matado só um, e ainda um velho indefeso.

Quando os amigos das comunidades vizinhas chegaram era 8 hs da noite. O corpo do morto estava em cima de uma porta, forrado com uma rede, e debaixo da porta tinha poça de sangue. O povo apalpava as cinco entradas de bala como quem passa a mão nas chagas de Cristo. Tiraram a camisa ensanguentada para vestir uma camisa branca com manga cumprida, mas o morto não ajudou. A nova camisa num instante estava cheia de sangue precioso. A sentinela era choro e prece, e Nossa Senhora dos Aflitos olhando para o seu filho querido. Um dos companheiros assentou num caderno com mão trêmula as palavras: MANOEL MONTEIRO DE SOUZA, 76 ANOS, FOI MORTO COM CINCO TIROS DE REVOUVE CALIBE NÃO SEI, PORQUE TINHA MUITOS TIPOS DE ARMAS.

Ao lado do corpo estava a filha que vivia com o pai, e o nome da filha é Maria das Dores.

No outro dia, domingo, as mulheres voltaram do “Evangelho”. Os homens contavam os meninos. As 11 h ainda faltava uma menina.  Depois do almoço chegaram muitos irmãos de Bacabal e de outras comunidades. Chegou também Dom Rino de Balsas. Pois o nosso bispo, Dom Pascásio, já tinha partido para Brasília, a fim de levar o protesto à última instância. Na missa ficou sobre o altar uma bala, como se fosse um cravo que furou Jesus. Na Carta aos Romanos dizia: “Quem acusará os eleitos de Deus? Quem há de condenar? Quem nos pode separar do amor de Cristo? Aflição, angústia, perseguição, espada? Não, pois de tudo isto somos vitoriosos. Nem as dominações, nem as potestades nos podem separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus”. O leitor ainda tentou interpretar as palavras, mas as lágrimas não deixaram. Era Domingo do Cristo Rei. O evangelho era de João 18, onde Pilatus pergunta a Jesus: “Tu és rei?” Quem respondeu foi o finado Manoel: “Sim, eu sou rei! É para dar testemunho da verdade que vim ao mundo”. Disse Pilatus: “A verdade, o que é?” como se não soubesse, mas depois se lembrou: “Não encontro nele nenhuma culpa”. O caso é este: Pilatus sabe, qual é a verdade, mas assim mesmo dá Liminar em favor de Barrabás.

O filho do morto tomou a palavra, mostrou para Jesus e mostrou para o pai: “Ele também foi cravado, na cruz de Pau Santo”. Dom Rino lembrou a revolta do profeta: “Se saio ao campo, só vejo violência e morte, se entro na cidade encontro os horrores da fome”. Durante toda missa tinha uma cruz que trazia a camisa ensanguentada, veste que lembra a violência que fizeram contra José do Egito. Molharam em sangue e disseram ao pai: Foi uma fera! E nisto nem mentiram, pois só fera faz isto.

No cemitério, a mãe terra abriu o seio para acolher de novo o filho querido. O ancião foi enterrado ao lado de sua esposa. Os irmãos foram para casa, mas a pergunta ficou: E agora? Ninguém tem paz! O Maligno ainda não saciou sua fome. Satanás foi precipitado do céu e com ele os seus anjos. Mas cuidado, ó terra, ó mar! Pois o demônio desceu até vós cheio de ira, sabendo que pouco tempo lhe resta. Sendo derrotado por um inocente, ele inventa mentiras: A polícia foi recebida a tiros!

Depois do enterro um companheiro falou: “Os outros não queriam acreditar, mas eu ouvi na farmácia em Bacabal a conversa de dois sujeitos: Que dia vamos para o Pau Santo? Depois do dia 20 não tem data. O pobre do primo (pretenso dono) está com a fazenda quase perdida, sem poder visitar. E lá tem um bando de sem-vergonha querendo ser proprietários, uns vagabundos que não têm dinheiro para comprar um kg de açúcar”.   

Porque é que o exercito do Maligno se movimentou para Pau Santo? Este povo é tão perigoso? Sim, o perigo é grande: Aldeia não quer mais a canga, Pau Santo não aceita o jugo. Quem vai carregar o peso? Estão dizendo que Dom Pascásio teve sucesso: O Presidente da República já decretou a desapropriação das terras tanto da Aldeia como do Pau Santo. Mas com tanta lágrima, quem pode se alegrar? É esta a reforma agrária? O lavrador só compra seu direito com o preço da morte?

E a justiça? O assassino do Ferreirinha (sindicalista morto em 11 de agosto de 1985) está tranquilo e nunca levou um susto. Pilatus vai julgar Herodes? É Deus quem faz justiça.

 

DO FUNDO DO MEU PENAR CHAMO POR TI, CHAMO POR TI:

SENHOR, ESCUTA A MEU CLAMOR.

 Lago da Pedra, dia 26 de Nov de 1985

 

Frei Adolfo Temme        

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